Eu quis ser flor

Um céu azul bem limpo e um vento forte em um dezembro ensolarado. Essas memórias invadem minha mente durante o meu sono… Por que não consigo lembrá-las quando acordado? Sol. Há um banquinho de praça embaixo de uma árvore molhada de orvalho e lá estamos eu e você. Silêncio. O vento balança de leve as folhas. Deve ser fácil a vida de árvore”. Deve ser bonito. Tem dois jovens apaixonados embaixo da minha sombra, abraçados. Ele escreveu seus nomes sobre a minha pele. Abraço a menina para que ela se conforte em minhas raízes profundas, meu tronco. O eterno acaba aqui. Manhã de sol. Vez em quando o vento sopra e faz pingar a água fria do orvalho em mim. Não sei mais o que é sonho. Fecho os olhos e vejo você. Respiro fundo procurando o teu cheiro. Quero dormir e sonhar com você, sabendo que isso faz mal a mim, mas eu quero. Digo que não, reluto, mas o que eu quero mesmo é você. Sonho. Queria ser grama, então você poderia deitar em mim, rolar em mim, chorar em mim, e eu te acalentaria e olharia as estrelas junto com você. E ficaríamos o tempo da felicidade olhando as estrelas. E no meu sonho você me ama assim, suave. Eu quis ser flor, quis te dar meu amor, meu perfume, meu amor. Eu quis ser leve, ser tomada em seus braços e suspirada, e ver nos seus olhos todo o amor que você é capaz de sentir, e, por fim, desfaleceria junto às águas num vaso do seu quarto. Eu quis ser flor, quis morrer de amor em seus braços, desabrochar ao sorrir das manhãs, exalar perfume ao sol.  Ser presa nos cabelos das meninas. Ser colhida por um beija-flor vivaz. Esvair-me de toda a minha doçura em seus lábios. Não deve ser triste esse romance.  O beija-flor ama a sua flor, isso não se pode negar. Nem que seja por alguns instantes, ou pela eternidade dos nomes escritos na árvore, mas existe amor. Eu quis ser flor pra você, ser beijada, ser colhida e murchar em seus lábios. Suave… devagar…

Acordo e não há orvalho no meu gramado. Não tem você no porta retrato antigo. Tem uma borboleta que sobrevoou o jardim e pousou junto a mim na janela. Borboletas são flores que ganharam asas. O amor que havia nelas era demais e as levou ao ar. É linda a vida de uma borboleta. “Linda e curta”. Ser delicada e pousar de mansinho. Dar amor sem machucar… Sonho com você embaixo da árvore, estamos sentados em um banquinho, o orvalho já secou. Seus olhos me fitam.  Um filme eterno em que a cena não muda jamais. Minhas asas não me deixam voar.

Pedro Araújo

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