Chão da infância

Lembro minhas tardes. O sol que brilha forte em Janeiro ainda é do mesmo jeito que eu consigo lembrar. As velhas ruas quentes e empoeiradas do meu bairro, hoje, já estão pintadas com o cinza do asfalto. Eu e as outras crianças corríamos soltos e descalços, subindo e descendo a rua. Lembro-me de quando passava um caminhão ou um carro veloz e toda aquela poeira subia! A gente fechava os olhos e prendia a respiração para não engolir e nem respirar aquela poeira amarelada. E não pense que era tudo árido e seco. De todas as cores das minhas memórias, é o verde que está mais presente nelas. Em frente à nossa rua, havia um grande sítio sem muro. Era cercado apenas por uma velha cerca de arame farpado, e nós entrávamos no meio dos matos verdes pra brincar de esconde e de clubinho. Correria. Fizemos até um campinho para jogar futebol. Hoje esse sítio foi vendido em lotes e há várias casas onde antes havia o nosso campinho. O legal é que no período em que estavam construindo as casas, a gente brincava de esconde e de polícia-e-ladrão nas construções. A cidade muda depressa e a gente tem que fotografar com a memória aquilo que já foi belo.

Vez em quando, nas férias, meu pai armava no gramado uma piscina daquelas de plástico azul que dava pra guardar numa caixa depois de usar. Minha mãe fazia bolinhos fritos e a gente ficava na água até as nossas mãos ficarem enrugadas como mãos de velhos. E nós achávamos aquilo o maior barato. Frio. De noite olho as estrelas procurando as três marias. Elas mudaram de lugar? “A terra gira, meu bem”. O céu da minha infância não é mais o mesmo de hoje. Ou será que eu estou enlouquecendo? Procuro estrelas antigas, mas não é possível procurar por algo que você não sabe exatamente o que é. “Vê as estrelas? Algumas já deixaram de existir há milhares de anos! Mas só agora é que a luz dela chega até nós”. O mundo muda depressa. E a gente tem que ter cuidado para que o novo não seja pior do que o que foi.

Lembro minha infância distante. Os pés apressados correndo o chão. O vento batendo no meu rosto e fazendo esvoaçar os meus cabelos loiros. Chão da infância. Tempo perdido no tempo. Lembro as chuvas caindo forte no inverno, o céu cinza. Eu ficava da janela olhando a chuva cair. Sonhos. A vida passa depressa.

Pedro Araújo

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Um comentário sobre “Chão da infância

  1. Chão da Infância

    ‘O sol que brilha forte em janeiro
    Ainda é do mesmo jeito que consigo lembrar.’
    As velhas ruas quentes de meu bairro fagueiro,
    Estão pintadas pelo cinza do asfaltar

    ‘Lembro minha infância distante’,
    Meus ‘pés apressados correndo o chão.’
    Lembro-me do inverno gigante
    Em que a chuva me chamava atenção.

    ‘Tempo perdido no tempo’
    Da vida que passa depressa,
    Do mundo que muda depressa.

    Tempo perdido no tempo
    Da memória que fotografou o que foi belo,
    Do sonho que refaz, com o passado, o elo.

    Guto Feitosa

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