Para o meu lourinho mais fofinho, com amor e carinho. Tia Duda

Sou sentimental. Talvez seja este o maior fato sobre mim mesmo. Sim, podem rir, não me importo. Prefiro que riam de mim por algo que sou do que ser superestimado por aquilo que é fingimento. Sou cheio de saudades e me apego facilmente a coisas e a pessoas. O passado é o tempo que acho mais bonito. Lá estão reunidas todas as minhas alegrias e lágrimas, as mancadas e aquela lembrança que me dá aquele sentimento de que fui feliz. E por isso, tenho o costume de guardar objetos que me fazem lembrar esse passado. Além da saudade, é claro. Tenho saudades de coisas que vivi, das coisas que ouvi falar, de músicas que não foram da minha época mas que escutei, de música antiga, romântica. Tenho saudade da chuva, tenho saudade do que aconteceu há quatro anos e tenho saudade do que aconteceu no último sábado. O futuro me preocupa também. Mas para falar a verdade, só quero que meu futuro seja bom porque quero que ele deixe boas lembranças pro meu passado. Não sei se devo me preocupar muito com isso, nunca liguei muito pra essa história de se sacrificar no presente para garantir um futuro melhor como as pessoas dizem. Acho que a gente tem que viver bem o tempo todo. Disso estou certo.

Você deve estar se perguntando por que essa postagem está assim diferente do que costumo postar. Ainda mais se você leu o título, que não tem absolutamente nada a ver com o que eu escrevi até agora. Coloquei esse título nessa postagem porque ela fala sobre o passado. O que escrevi no título é a dedicatória que está no primeiro livro que ganhei de presente de uma professora da minha segunda série: a tia Duda. Guardo esse livro há 15 anos. Sempre achei que o guardaria para sempre. Sou daquelas pessoas que guardam objetos aparentemente sem importância e que só tem sentido para quem os guarda. A lembrança atribui valores incomparáveis a coisas que outras pessoas julgariam não ter valor algum. Pois bem, numa daquelas mudanças no quarto, me deparei com esse livro que estava guardado na minha estante. Peguei-o com cuidado (está um pouco velho) e abri com emoção a capa para ver a primeira página e dizia “Para o meu lourinho mais fofinho, com amor e carinho. Tia Duda”. Minha mãe sempre contava e lia histórias para mim, foi ela quem me ensinou a ler e a partir daí eu lia sempre as histórias vinham em cada capítulo daqueles livros didáticos. Mas este foi o primeiro livro de verdade que li: Marcha, soldado, cabeça de Miguel da autora Rita Espechit. Essa história significa tanto pra mim que acho que eu não gostaria tanto de livros como gosto hoje se não fosse por esse presente.

Mas aí chega aquela hora em que outras prioridades passam a reger sua vida e sua personalidade. Estou fazendo parte de um projeto que tem o objetivo de levar livros infanto-juvenis para orfanatos e casas de acolhimento. A intenção é incentivar a leitura e levar a magia dos livros para crianças que talvez nunca tiveram a oportunidade de ler um livro. Nós, do projeto, fazemos o possível para conseguir doações de livros e dinheiro para comprar livros novos. E aí eu fiquei com uma dúvida que me massacrava por dentro porque, como escrevi, sou extremamente apegado a coisas. Mas acabei decidindo finalmente que iria doar o livro. Sim, doarei o meu primeiro livro, o presente que possivelmente mudou minha vida, com a dedicatória que foi escrita para mim. Decidi que este livro significou muito para mim e tenho um sentimento e carinho enorme por ele (e pela tia Duda, é claro) mas que, hoje, ele não pode mais mudar a minha vida. Isso já foi feito. Guardarei este título, a dedicatória, a professora, a história, as ilustrações e o nome da autora para sempre comigo. Mas decidi que talvez esse livro encante outra criança, e por isso vou doá-lo. Apenas a possibilidade de que esse livro seja significativo para outra pessoa me encanta. Eu sei que talvez esse livro fique jogado no fim da estante, ou talvez ele seja rasgado, ou talvez ninguém o leia. Eu não me importo. O que sei é que agora esse livro pertencerá a crianças que precisam dele muito mais do que eu.

E agora você deve estar se perguntando o porquê de eu ter feito essa postagem diferente das que costumo fazer. Não é nada literário, nenhum poema em prosa ou em verso, não é um conto, crônica, ou uma música. Acho que na verdade eu só queria escrever mesmo. Como já disse em outra postagem como essa, apesar de público, este espaço é muito meu. Queria deixar isso registrado, acho que é uma forma de não esquecer. Percebi que eu fico melhor quando consigo passar por cima do meu sentimento de querer guardar tudo e doar isso pra alguém se for útil. Farei isso mais vezes. Só pra finalizar eu queria dizer que depois que eu terminei a segunda série eu nunca mais vi a tia Duda na minha vida. Nunca tive a oportunidade de agradecer a ela pelo presente. Então acho que também escrevo por isso, quero deixar registrada aqui a minha gratidão. Então, tia Duda, se por acaso, algum dia, numa dessas eventualidades que só a vida é capaz de proporcionar você chegar a ler essa postagem, saiba que o livro que você deu praquele menino loirinho e sapeca que fazia segunda série na escolinha pica-pau possivelmente o fez amar os livros. Muito obrigado por isso. Eu acredito que ela deu livros para outros alunos seus também, talvez não. Não importa. O que importa é que eu aprendi a lição e estou dando esse livro para outra pessoa. Darei também outros. Talvez, quem sabe, eu seja como tia Duda na vida de alguma criança.

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