Relicário

Amanheceu. Chove na janela e quando isso acontece sinto que estou diferente. Sinto que o dia não será normal ainda que eu faça exatamente o que fiz ontem. Não sei ao certo o porquê, talvez nada mude afinal, mas gosto de pensar que a chuva me traz esse sentimento. Umas coisas que não sei dizer, tão incertas quanto esse céu escuro que parece esconder mistérios. Ando tão acostumado e cansado do calor das ruas, da rotina, da exaustão que esses dias quentes me causam; que quando saio andando pelas ruas e sinto o cheiro da terra molhada pareço ficar mais leve. Sublime. O vento frio que me abraça suave. A chuva parece amolecer umas memórias fundas que eu quase esqueci. Um mergulho fundo numa piscina de águas frias é o que eu sinto quando entro nessas memórias que despertam aqui dentro em mim. Umas lembranças adormecidas. Longínquas. Um amor que já não amo, uma saudade que já não sinto. Uma vida tão distante que nem parece a minha, mas que, de alguma forma, me trouxe até aqui. Um relicário que eu guardei no lugar mais secreto, dentro de mim, num labirinto tão grande e escuro que até eu mesmo me esqueci onde guardei. Um relicário. As memórias guardadas, cinzas do tempo,  ninguém sabe, ninguém viu, ninguém lembra. Coisas do meu filme em preto e branco que ninguém assistiu, uma música que ninguém parou pra ouvir. Umas felicidades só minhas, e que eu até partilhei com pessoas que talvez nem se lembrem. Que nem se lembrem, talvez. O tempo vai passando e a gente vai sofrendo, vai percebendo que a coisa mais cruel é não poder voltar atrás no tempo, reviver essas saudades que apertam o peito ou que nos fazem sorrir sozinhos. Precisa mesmo ser assim? Aprendi que o preço que se paga por ser feliz é ter memórias pra lembrar. E isso talvez não seja ruim. As lembranças, as saudades, o vento frio. O cinza dos dias, das memórias, desse quarto escuro. Essa chuva e as solidões que eu enterrei no meu peito. Tudo isso no relicário que eu perdi nesse imenso escuro dentro de mim. Vez ou outra o encontro sem querer, passeando em mim mesmo, num dia qualquer. Abro, vejo o que está gravado, coloco memórias lá dentro e o atiro no escuro outra vez. Desconfio que a chuva me traz a chave ou a luz para encontrá-lo. O céu nublado, chuva fina. Um vento frio que me arrepia e me invade com o cheiro da terra molhada. Os olhos se abrindo em lentidão. Essa solidão cinza é belíssima com esse entardecer invernoso. Fecho os olhos e sou apenas lembrança.

Pedro Araújo

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