Confissão

É a sexta vez que inicio esta carta. Toda vez escrevo o primeiro parágrafo e, quando termino e paro pra ler, amasso tudo furiosamente e jogo fora. Talvez eu queira te impressionar logo nas primeiras linhas, mas não consigo, e é justamente isso que me frustra: não conseguir te impressionar. Espera. Já estou fazendo tudo errado de novo. Mas dessa vez prometi a mim mesma que iria até o final, e quer saber? talvez seja esse o meu erro, achar que nunca sou o bastante, que nunca chegarei aos seus pés. Talvez o meu erro tenha sido achar que não sou aquilo que você sonhou e merece. Quantas vezes eu me perguntei isso com o peito apertado de angústia? Agora vejo as coisas de uma maneira diferente. Se apenas eu pudesse voltar…

Não, não, espera. Vou começar de novo…

Você sempre pediu sinceridade e, bem, pra te falar a verdade, a minha sinceridade sempre foi tão, mas tão sem graça que às vezes eu não te falava nada porque tinha certeza que você acharia aquilo totalmente sem graça e sem importância. Sempre achei que as minhas verdades não eram profundas e tocantes o quanto você gostaria que elas fossem. E agora, para minha surpresa, foi justamente o meu silêncio que te afastou. Eu deixei isso acontecer aos poucos. O pior, talvez, foi perceber que você seguiu em frente e eu fiquei aqui, nesse lugar que não existe no mundo real, só nas nossas lembranças, acho que só na minha lembrança agora…
Quando foi que você fugiu das minhas memórias? Parece que você tomou as lembranças alegres que eu tinha com você, e, agora, mesmo quando as lembro, elas parecem estar em um tom cinza e sem graça. Como se você tivesse pego por direito aquilo que era seu e me deixou apenas com um esboço. É como se você tivesse arrancado da minha mente as memórias que também eram suas. Nem com a sua imagem posso ficar?

Talvez seja tarde demais, mas não me resta nada mais a perder, então eu direi aquilo que eu queria ter dito, que eu deveria ter dito, mas que não disse por medo do que você acharia de mim. Talvez você me achasse um pouco mais interessante  (talvez) se eu te falasse coisas só minhas, se eu te deixasse entrar no meu mais íntimo para que você pudesse me ver completamente transparente. Eu deveria ter te falado, por exemplo, do medo que tenho de sair do banheiro quando está tudo escuro e não tem ninguém em casa. É apavorante! Não tenho medo de andar pela casa, o medo é sair do banheiro apenas com uma toalha em direção à escuridão. Não sei de onde vem isso, só sei que quando não tem ninguém em casa e preciso tomar banho, acendo todas as luzes! Não tenho certeza, mas devo ter visto algum filme há muitos anos atrás em que a mocinha era atacada justamente quando saía do banheiro. Ou talvez quando eu era muito criança me aconteceu algo neste percurso no escuro. Ou quem sabe não aconteceu nada mesmo e eu fico buscando uma invenção para justificar esse meu medo ridículo…

Nunca saberei.

A verdade é que eu sempre tive medo. Medo de que eu me mostrasse por inteiro, completamente, e que o meu eu mais verdadeiro, mais profundo, te decepcionasse. Por isso construí uma armadura agradável para que você gostasse de mim. Agradável, mas vazia… Construí uma personalidade pra te conquistar, com gostos musicais e artísticos, com modos de pensar e agir. Tudo pra que você me achasse a pessoa mais perfeita e incrível do mundo. O problema é que eu fiquei vazia de mim mesma.

Foi esse vazio que me fez perder você.

Mas tem uma coisa que quero deixar muito clara aqui:  é o que sinto. Apesar de tudo sobre mim ser uma farsa, o que eu sinto por você era tão verdadeiro quanto o céu é azul. Em hipótese nenhuma os beijos apaixonados que eu te dei eram de mentira, muito menos as palavras que eu te disse, ou do amor que fizemos enrolados nos frio dos lençóis. Nada disso foi mentira, foi tudo verdade. A melhor verdade que eu já vivi, pra ser exata. A maneira como você me olhava fazia eu sentir que tudo era perfeito e que tudo fazia sentido na minha vida.

Até que, um dia, acabou.

Uma das poucas lembranças que ainda tenho bem fortes aqui é uma em que nós dois estamos caminhando na praia. Acho que eram por volta das onze horas da manhã, porque eu lembro o sol alto acima do mar e você botando sua mão por cima dos olhos enquanto fazia careta. O vento estava forte e balançava um pouco o seu cabelo, até que você de repente me olhou, me tomou pelas mãos e me disse que estava muito feliz de estar ali comigo. Não sei o porquê, mas nesse momento um sentimento de realização me tomou tão forte que eu fiquei sem palavras. Acredito que fiquei sem palavras até hoje. Foi tudo tão de repente, não foi? Quando foi que a minha mentira passou a não ser suficiente pra te fazer feliz? Lembro-me, com dor, do quanto você me amava. E de como eu pus tudo a perder. Parece que, no final, a minha superficialidade não era profunda o suficiente para que você criasse raízes.

Eu só queria poder te mostrar tudo o que há em mim, guardado aqui dentro, e que durante todo esse tempo eu mantive em segredo por um medo irracional de me mostrar e afastar as pessoas por não agradá-las com aquilo que eu sou. Burrice. Só agora me dei conta de que quando a gente ama alguém nós queremos que a outra pessoa se mostre inteiramente. E é conhecer essas fraquezas do outro que criam uma ligação única. No final das contas, foi eu quem te afastei de mim. Afastei e te joguei (ou me joguei) num abismo inalcançável agora…

O mais difícil hoje é continuar te vendo nas esquinas e ruas por onde eu passo, continuar sabendo que você existe nesse mundo, sem mim. O mais difícil é saber que eu não faço falta alguma na sua vida, e que você já talvez até já encontrou outra garota pra abraçar. O mais difícil não é viver sem você, é saber que você vive inteiramente bem sem mim. Como se eu nunca tivesse passado pela sua vida. Como se tudo o que a gente viveu, no final, não tivesse significado nada.

Absolutamente.

Nada.

***

Pedro Araújo

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