Quanto vale um céu estrelado?

Para Raíssa França

A beleza está nos olhos de quem vê. Seria clichê demais começar assim? Eu poderia começar esta carta de várias outras formas possíveis. Falando, por exemplo, sobre as vicissitudes da vida e como essas mudanças que vão acontecendo mexem com a gente. Sobre como a vida é frágil e, num instante, ah, num instante qualquer, as coisas podem mudar de repente. Chega até a ser injusto. Você me falou, e eu acredito, que a gente tem que se apegar às coisas pequenas, às situações simples. E é verdade porque se a gente escolhe passar a vida inteira complicando demais, sendo difícil demais, quem acaba perdendo somos nós mesmos. Por isso decidi começar de uma maneira bem clichê: “A beleza está nos olhos de quem vê”. Porque acredito, sinceramente, que ser feliz também é escolha. É acreditar que mesmo quando as coisas não vão bem elas podem melhorar. É acreditar num sonho e se deixar levar por ele.  É escolher enxergar o lado bom das coisas. Porque se tem uma coisa que eu aprendi na minha vida é que escolher ver o lado ruim é frustrante e triste. Há uma frase de um linguista famoso, Saussure, que diz o seguinte: “É o ponto de vista do observador que cria o objeto”. E diz que, por exemplo, as constelações só podem ser vistas da Terra. Se você for pra outro planeta, a sua perspectiva, o seu ponto de vista muda, e então você verá algo completamente diferente do que você via antes. Talvez não seja a constelação que você queria, mas você pode enxergar outras novas desse novo ponto.

Sob qual ponto de vista você está olhando sua vida?

Meus dias, ultimamente, não têm sido fáceis, e, assim como você, o meu maior medo na vida é não conseguir ser feliz. Não é apavorante? Pensar que você desperdiçou a sua vida inteira com milhares de coisas diferentes e, no final, não ter aquele sentimento de satisfação, de felicidade. Tenho muito medo que o meu futuro não seja aquilo que eu espero. Mas, como você mesma disse, a gente tem de se agarrar ao que nos faz bem. O simples. Viver não é tão ruim quando você sabe ao que dar valor. O nascer do sol, o vento frio de um dia chuvoso, os bons amigos, o frio na barriga que o amor traz. Deitar na grama e olhar o céu estralado na noite. Silêncio. Apenas você contemplando a imensidão das estrelas no céu. Não consegue ver as constelações que você queria? Crie-as com o seu olhar. No final, o que vai ter valido a pena na vida? O quanto todas as coisas terão significado para você? Mesmo quando a vida for injusta, o que nos resta dela é aproveitar cada momento da melhor forma possível. Uma frase do livro “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry, expressa bem o valor que as coisas simples podem ter: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a tornou única”. O valor das coisas da vida é atribuído por nós. Nos resta saber dar valor às coisas certas, àquilo que nos faz feliz. 

Qual valor você dá para um céu estrelado?

Pedro Araújo

Primeira carta: Caro Pedro,

Anúncios

4 comentários sobre “Quanto vale um céu estrelado?

  1. Pingback: Sobre o medo do escuro | Uma flor qualquer

  2. Pingback: Temos todo o tempo do mundo | Uma flor qualquer

  3. Pingback: Sobre promessas e marcas que a vida faz | Uma flor qualquer

  4. Pingback: Sobre silêncios noturnos e corpo vazio | Uma flor qualquer

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s