Sobre o medo do escuro

Esta é a quarta carta.
Primeira carta:
Caro Pedro
Segunda carta: Quanto vale um céu estrelado?
Terceira carta: O que fazer quando a solidão chega?

 

Para Raíssa França

 

“Quando a solidão chega, o que a gente faz?” Você me perguntou. E confesso que não sei ao certo a resposta. E, levando em conta tudo o que tem acontecido ultimamente, talvez seja essa a resposta da qual mais necessito. A solidão, essa dor disfarçada nessa palavra bonita, tem estado esperando por mim no escuro do meu quarto por tanto tempo que agora é como se já fizesse parte da mobília. Uma solidão que se faz presente tão constantemente que agora só me vejo acompanhado dela. Quão irônico não seria isso? Estar acompanhado da solidão. Um paradoxo belo e triste.
Acredito que uma das maiores tristezas que pude experimentar foi a sensação de estar sozinho no meio de uma multidão. É como se todas as pessoas ao seu redor não tivessem importância nenhuma na sua vida, da mesma forma como você parece não ter importância na vida delas. Como se tudo ao seu redor ficasse cinza e sem som. Como se o tempo passasse devagar…

Lembro-me da primeira vez em que o meu coração se partiu em pedaços, tempos atrás. Meu amigo, Felipe, ficou muito doente de uma espécie rara de anemia. Eu me lembro como hoje de tudo o que foi feito para tentar salvar a vida dele, mas…
Doeu tanto em mim porque naquele período da minha vida eu estava passando por uma fase difícil, e era ele quem sempre estava lá para me apoiar quando eu precisei. Até que ele adoeceu…
Eu fui uma das últimas pessoas a vê-lo na cama do hospital. Lembro-me que a hemorragia estava tão intensa que os olhos dele estavam vermelhos, como se o sangue estivesse querendo sair por ali. A última frase que me lembro de ter ouvido dele foi a resposta à minha pergunta, se ele queria que eu desse algum recado ao melhor amigo dele, e ele sorriu de lado e me respondeu: “Só avisa pra ele que eu vou ficar bem!”…

Foi a última vez em que falei com o Felipe.

Era ele, o meu amigo, que estava enfermo, sem forças, com o seu corpo fragilizado pela doença, e foi ele quem me mostrou uma das maiores lições de forças que já presenciei: “Diga ao meu amigo que eu ficarei bem”, ele disse; como quem diz “não se preocupe comigo, logo eu estarei melhor.”

Superar a perda do Felipe foi difícil porque eu tive a sensação de estar perdendo para sempre as pessoas que eu amava.
A morte faz isso com a gente. Coloca a efemeridade da vida em evidência, e então a solidão vai tomando conta de nós.

Não há dor maior do que ver morrer uma pessoa que você ama.

Foi assim com o Felipe. Foi assim quando perdi meu pai.

A solidão tem acariciado o meu coração sempre que vejo a mesa vazia ou o rádio que ele ouvia desligado. O retrato na estante eterniza um riso que eu muitas vezes ouvi ecoar pela sala de estar.
São lembranças que às vezes enchem nosso peito e nosso coração.
Uma sensação de solidão e perda que você não esquece, apenas se acostuma com ela, como a que me espera nas sombras do quarto.

A solidão, essa dor disfarçada de saudade, às vezes me apavora. Como uma criança que tem medo de ser abandonada, eu tenho esse medo escondido e desesperador de ser abandonado.

Que solidão tem apertado o teu peito? De tudo aquilo que a vida nos traz e nos leva, do que você tem mais medo de perder?

Pedro Araujo

 

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4 comentários sobre “Sobre o medo do escuro

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