Temos todo o tempo do mundo

Esta é a sexta carta.
Primeira carta: Caro Pedro
Segunda carta: Quanto vale um céu estrelado?
Terceira carta: O que fazer quando a solidão chega?
Quarta carta: Sobre o medo do escuro
Quinta carta: Quando foi que nós crescemos?

*****

Para Raíssa França

Veja o sol dessa manhã tão cinza. A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos. Então me abraça forte, me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo. Temos nosso próprio tempo… temos nosso próprio tempo…

Minha querida amiga, sei das coisas que tem apertado o teu peito. Você me perguntou quando foi que nós crescemos, quando foi que as contas, os problemas, as responsabilidades e as dificuldades apareceram. Eu acredito que você já saiba a resposta. O problema é que essa resposta é cruel e rápida, e nós não estamos acostumados com mudanças tão repentinas. Como você disse: “Aí você cresce e percebe que a vida de gente grande é um saco.” Engraçado como todos nós achamos isso,não? Mas temos outra escolha? Você percebe que cresceu quando mesmo acordando sem vontade nenhuma de viver, você tem que vestir um sorriso e ir ao trabalho, à faculdade, aos compromissos.  E talvez a parte mais dura disso é que, muitas vezes, a única companhia verdadeira que você tem é a sua própria. Um diálogo mental constante, umas epifanias que vem do nada enquanto você caminha até o ponto de ônibus e que te acompanham até o fim do dia. Como uma solidão que se faz presente em diálogo dentro de você. É por isso que nos achamos incompreensíveis. Palavras não conseguiriam expressar aquilo de mais íntimo que nós sentimos porque nem nós mesmos conseguimos expressar totalmente, nem em palavra, nem em pensamento, nem mesmo em sentimento. É por isso que ficamos angustiados. Mas, que escolha nós temos a não ser seguir em frente? Pior do que viver na dor é se entregar a ela. Não podemos simplesmente dizer que estamos doentes e ir ver desenhos na televisão da sala.

Que outra opção nos resta a não ser viver a vida que nós temos?

Mesmo que tenhamos que, por vezes, andar com o peso do mundo nos ombros, como você bem disse. Eu tenho me sentido assim também (tanto é que levei dois meses para responder a sua carta), mas é como se minha demora fosse a resposta. O tempo passou tão depressa que não tive como te escrever essa carta antes. Pelo menos não do jeito que eu queria escrevê-la.

Tudo está ligado ao tempo. O tempo, esse devorador que não perdoa nem a seus filhos.  Carpe diem! me disseram uma vez, e eu digo que nós só sabemos se o tempo valeu depois que ele passa e nós olhamos pra trás pra saber se foi arrependimento ou não. Se conseguimos aproveitá-lo ou não. Se as pessoas, os lugares que escolhemos valeram ou não. Se as coisas que deixamos de fazer, de colocar pra fora, ficaram incomodando o peito ou não. Como diz a canção de Renato Russo “Não temos tempo a perder[…] então me abraça forte, e me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo, temos nosso próprio tempo”. A vida é muito curta pra ser desperdiçada com coisas que não valem a pena. Alguns sacrifícios devem ser feitos, é claro. Afinal, temos objetivos, e como diz Beauvoir, toda vitória oculta uma abdicação. Só o que não vale a pena é quando deixamos a nossa vida se transformar num eterno processo, que não chega nunca a uma conclusão, aí deixamos de viver. Temos todos o tempo do mundo, esse tempo precisa ser aproveitado da melhor forma. Não quer dizer que vamos sempre acertar, mas não podemos nos conformar em não tentar. Mesmo que no futuro a gente veja que uma ou outra escolha não tenha sido tão certa.

O que dói é saber que estamos crescendo, e que com isso vêm as responsabilidades, os compromissos, as alegrias, raivas, tristezas e tudo aquilo que, a certo ponto, transforma a gente num turbilhão de sentimentos. E que, queiramos ou não, faz parte do processo que é viver. Os contrastes evidenciam os opostos, assim com a luz evidencia uma sombra, aquilo que é ruim evidencia o que é bom, ainda que pequeno. Temos todo o tempo do mundo, mas isso não significa que temos tempo a perder. O segredo é da vida, por mais clichê que pareça, é viver. Viver de forma completa, intensa, sem abrir mão do que somos, do que queremos, ou até mesmo dos sacrifícios de chegar. Não, não parece justo. Mas é assim que é. Que nos resta fazer a não ser fazer bom uso daquilo que temos?

Como você tem usado o seu tempo? Que pessoas, que lugares você tem visto? Que decisões você tem tomado? A sensação de que o tempo está nos devorando está sempre presente demais. O que você tem feito com aquilo que a vida, ou o tempo, ainda não te devorou? Viver é simples, mas não é fácil, e tomar decisões talvez seja a parte mais difícil de ser grande.

Acho que é nesse ponto que nós nos damos conta que crescemos. Quando temos, obrigatoriamente, que tomar decisões. E umas decisões só nossas, que podem mudar completamente o rumo das nossas vidas.

Ser gente grande não é fácil.

Pedro Araújo

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3 comentários sobre “Temos todo o tempo do mundo

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