Sobre promessas e marcas que a vida faz

Primeira carta: Caro Pedro || Segunda carta: Quanto vale um céu estrelado? || Terceira carta: O que fazer quando a solidão chega? || Quarta carta: Sobre o medo do escuro || Quinta carta: Quando foi que nós crescemos? || Sexta carta: Temos todo o tempo do mundo || Sétima carta: Nada mudou, mas tudo está diferente ||
Esta é a oitava carta.

Para Raíssa França 

Raíssa, eu descobri através da dor que talvez uma das piores sensações que uma pessoa pode experimentar é a de se sentir sozinho no meio de uma multidão. Eu já tinha dito pra você, em outra carta, que a solidão é uma presença invisível que espreita no escuro do quarto e que acompanha a gente em nossos pensamentos mais íntimos. É uma dor nua que grita por atenção sem emitir som algum. Nem sempre estamos preparados para aquilo que a vida nos reserva.

Às vezes as coisas vêm na nossa vida e pegam a gente de surpresa. E isso dói bastante.

Você me questionou sobre como as coisas podem mudar tão rápido, sobre como as pessoas podem mudar tão rápido… Sobre como alguém que fez parte da sua vida por um tempo, que teve importância, de repente, passa a não significar mais nada, a ponto de não existir sequer um carinho pelo outro.

Eu aprendi, forçosamente, que uma das coisas mais difíceis que a gente tem que fazer nessa vida é ter que parar de amar alguém porque a pessoa parou de amar você primeiro. É quando você tem que aceitar que a outra pessoa não faz mais parte da sua vida. E não é porque vocês se mudaram pra longe um do outro, ou porque brigaram, ou por qualquer outro motivo que seja.  O duro é aceitar que a outra pessoa simplesmente não te quer mais na vida dela, não precisa mais, mesmo você demonstrando que ainda precisa dela, que ainda a quer na sua vida.

Um amor perdido, uma amizade rompida, uma vida que se separou da tua pela força da morte mas que fica pela força da saudade. Umas promessas que ficam perdidas no ar, que o vento e tempo se encarregam de levar pra longe. Viram brisa. E é por causa da nossa vontade de eternizar aquilo que foi bom, que as cicatrizes aparecem em nosso peito. Como se o nosso coração fosse uma pedra, e cada saudade, cada pessoa que vai, cada amor que acaba e cada amizade entalhassem as memórias nessa pedra. Esse corredor com fotografias de lembranças. Aperta o coração sempre que você passa e olha o passado na parede. Aperta o peito mais uma vez. Solidão? Saudade? Nostalgia? Não sei a palavra certa. Sei o sentimento certo? …

A letra escrita pelo Renato Russo talvez expresse isso com mais clareza, ou mais mistério, ou mais tristeza:

Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim tão diferente. Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre? Sem saber que o pra sempre, sempre acaba…

Minha mãe me disse uma vez que eu tenho alma de artista. Na hora eu ri, não entendi muito bem. Mas depois eu vi uma palestra que dizia que os artistas tem uma sensibilidade mais aflorada para as artes e os sentimentos. Talvez eu seja um pouco assim. Talvez eu não seja e queira ser, não dá pra dizer ao certo. O que eu sei é que as coisas me marcam bastante. A memória é um tormento, eu li uma vez. E é mesmo. As promessas de amizade e amor – ou vida – que não são cumpridas viram cicatrizes na minha memória e latejam cada vez que me sinto só. Quando alguém te promete algo e não cumpre, você sente o vazio que a expectativa cria em você. Quando alguém promete amar e desama, quando alguém te promete viver e não vive… Saudades de coisas distantes, vazios pintados de azul… Promessas que a vida te rouba sem dar explicação.

Quantas promessas você já teve roubadas?

Pedro Araújo

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Um comentário sobre “Sobre promessas e marcas que a vida faz

  1. Pingback: Sobre silêncios noturnos e corpo vazio | Uma flor qualquer

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