Sobre silêncios noturnos e corpo vazio

Primeira carta: Caro Pedro || Segunda carta: Quanto vale um céu estrelado? || Terceira carta: O que fazer quando a solidão chega? || Quarta carta: Sobre o medo do escuro || Quinta carta: Quando foi que nós crescemos? || Sexta carta: Temos todo o tempo do mundo || Sétima carta: Nada mudou, mas tudo está diferente || Oitava carta: Sobre promessas e marcas que a vida faz || Nona carta: O medo de ter medo || Esta é a décima carta.

***

Para Raíssa França

Eu percebi ontem – e confesso que estou até agora com um ar de tristeza por ter percebido isso – que eu já não sou o que era antes, já me perdi de mim mesmo no meio desses dias todos que passaram tão depressa que me deixaram sufocado. Sem ar. Um atropelamento sem impacto, que se sucede lentamente, dia a dia. Não tenho vergonha de admitir isso para ninguém. Não quero que ninguém tenha de mim a imagem daquilo que eu já fui um dia e agora não sou mais. Eu fiquei pior em vez de melhorar? Não sei. Na maioria das vezes é isso que acho, é a sensação que tenho, de que eu piorei. Sei lá. É como se meu corpo estivesse ficando vazio e eu começasse a fazer tudo automaticamente. O quão infeliz isso pode parecer pra você?

Desculpe-me por demorar tanto para te escrever de volta, o motivo já está explicado. É que os dias tem se arrastado numa velocidade tão invisível que quando vejo já é tarde e tenho que dormir pra encarar o dia seguinte. O silêncio escuro do meu quarto parece refletir minha vida, meu corpo. Estou vivendo uma superficialidade que chega a ser poética se você olhar do ângulo certo. Não falo isso com a intenção de comover você ou chamar sua atenção para mim. É que o começo de toda mudança é reconhecer o estado em que se está, a partir daí é que vou tentando aos poucos redescobrir o sentido de tudo aquilo que eu perdi. E assim, talvez, o silêncio escuro do meu quarto não seja mais tão melancólico. Eu descobri que – às vezes – é preciso se perder pra finalmente se encontrar. Por isso aceito a condição vazia em que me (des)encontro pra tentar reunir aqui alguns pedaços do espelho que se partiu, vou ajuntar e reconstruir aquilo que eu quero, agora com a maturidade e sem desejo nenhum de aparentar ser aquilo que não sou, são coisas que ficaram para trás. O meu futuro é incerto, talvez eu me perca de vez nesse vazio e acabe levando uma vida cinza no meio de tanta gente no mundo. Às vezes quero desesperadamente que alguém me salve, alguém que consiga me compreender só de me olhar, às vezes quero apenas ficar sozinho. Não que eu esteja achando essa fase ruim, apesar de ser triste, mas é certo que toda lagarta ao virar borboleta sofre ao sair do casulo.

Não tenho muito mais a dizer pra você, minha amiga, talvez você entenda. Não vou encerrar esta carta com uma pergunta, pra que sua eventual resposta não seja direcionada. Estou em um momento que estou me livrando de todas as amarras. Não quero ligações ou direções, quero correntes quebradas.

Pedro Araújo

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Um comentário sobre “Sobre silêncios noturnos e corpo vazio

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