Acostumado ao amor

Esse texto é para mim mesmo, principalmente. Deixo que vocês leiam, mas não garanto que vocês entendam minha confusão. Este não é um texto sobre amor, apesar da recorrência da palavra, muito menos um texto poético. Trata-se de um reflexo confuso, como a imagem de um espelho quebrado.

Saudades. O peito apertado naquela mistura de carinho e desejo, aquela ausência física que se torna presente lá dentro no coração, no pensamento, em tudo que você olha. Acho que amar é sentir uma constante saudade da pessoa amada. Apaixonar-se por alguém é uma das melhores sensações da vida. O início de tudo, os olhares, o frio na barriga, a incerteza do sentimento… Pena que a vida e o tempo fazem isso tudo passar. Não gosto de escrever sobre essas coisas ou sobre dar descrições muito técnicas, mas quando eu era adolescente eu ouvi uma falar em coisa que nunca esqueci: psicoadaptação.

A psicoadaptação é o que acontece quando você se acostuma a um estímulo, e aquilo não causa mais em você a sensação que causava antes. Por exemplo, a primeira vez que você vai à casa da pessoa pela qual você está apaixonado dá aquele nervoso, mas se você se acostuma a fazer isso, vai virar uma coisa natural. A primeira vez em que você vai falar em público, o primeiro beijo. Acontece o mesmo com tudo isso. Ou seja, aquele turbilhão de sentimentos que existe dentro de nós nesses momentos, como no início de uma paixão, um dia passa. E o mais triste é que essa tal da psicoadaptação faz com que passe também todas aquelas emoções e reviravoltas no estômago de quando estamos apaixonados. Isso não quer dizer que você deixou de amar a pessoa, isso quer dizer que agora ela faz parte da sua vida, e que é agora que você vai poder olhar para ela, se relacionar com ela, de uma maneira mais sincera, pois todas as reações químicas que aconteciam dentro de você e te faziam ficar com os olhos brilhando e com borboletas no estômago passaram. Quando essa fase acaba, então, você vai descobrir se o que você sente é suficiente pra continuar com a pessoa e passar a conviver com os defeitos dela, ou se era só fogo de palha e acabou.

Tem amores que também acabam.

O fato de acabar não significa que não foi amor. Tem uma frase que volta e meia vejo circulando por aí “Se acabou, nunca foi amor” e eu discordo completamente. Pode ter sido amor, sim. Porém, acabou. Nem todos os amores são eternos. Existem amores tão verdadeiros e intensos que duram apenas alguns meses e daí acabam, às vezes de forma horrível. Isso anula o sentimento que durou durante esse tempo? É tolice acreditar nisso. O fim não apaga as memórias. O que acontece é que você se psicoadapta a elas também, e elas deixam de doer. Cada um lida com o amor e seus finais de formas diferentes, mas, no fim, todos superamos isso. Já dizia Leminski:

Amor, então,
também acaba?
Não que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

O fim do amor será experimentado por todas as pessoas, faz parte de viver. Já conheci pessoas que ficaram traumatizadas, sem querer amar com medo do fim e do sofrimento. Tolas, acabam sofrendo do mesmo jeito.  A condição de seres humanos nos leva à inevitável dependência de afeto. E cria expectativas. Somos todos acostumados ao amor, temos dependência e necessidade dele. Ainda que a psicoadaptação ocorra e nós pensemos que o amor em nós adormeceu. Temos dentro de nós o desejo de sermos amados, e quando esse desejo, essa expectativa não é correspondida o coração sofre.

E o sofrimento… bem… ainda não tenho certeza se o nosso cérebro consegue se psicoadaptar a isso…

Pedro Araújo

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