Flores de plástico não morrem

Últimas cartas: 10ª: Sobre silêncios noturnos e corpo vazio || 11ª: Sobre sonhos e o desejo de realizar cada um deles
Está é a 12ª carta

Para Raíssa França

Quando na realidade o amor é uma coisa tão simples… Veja-o como uma flor que nasce e morre em seguida porque tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, não existe nada mais triste no mundo do que fingir que há vida onde a vida acabou. (Lygia Fagundes Telles)

Passaram-se já seis meses desde que você me enviou a sua última carta, e teve como resposta o meu mais profundo silêncio… As suas palavras demoraram para desabrochar aqui dentro, assim como as minhas demoraram ainda mais para quererem sair. Foi um longo tempo…

Todos os lugares do nosso coração parecem apontar para um único e irremediável e amedrontador ponto chamado futuro. Futuro. Uma luz no fim de um túnel que só pode ser atravessado nos braços do Tempo, esse devorador. Estamos envelhecendo, você me disse, e apesar dessa afirmação ser óbvia, ela carrega um quê de amargura que só aqueles que estão sentindo a juventude se esvair por entre os medos dedos sabem como é triste perceber isso.

Durante toda a vida a gente se equilibra numa corda bamba. E nos atiram tantas coisas que a queda parece ser inevitável. Como tomar tantas decisões? Como mirar o futuro com coragem e determinação se existem tantas coisas no passado gritando e chorando e se arrastando?

Na última carta que você me escreveu, você me disse para não abandonar os meus sonhos, e eu digo que, na verdade, sonhos jamais são abandonados. Ainda que você não os realize, volta e meia elas vêm e invadem a cabeça de repente, trazendo certo arrependimento, como se nos lembrassem que ainda estão ali. E o problema é justamente esse: não poder abandoná-los, esquecê-los, deixá-los de lado. Um sonho não realizado a gente carrega pela vida toda. E eles pesam. Se pelo menos nós tivéssemos outras chances…

Descobrir diariamente as certezas de estar em constante mudança desafia um coração que quer viver de memórias boas, que quer viver de sonhos.  São certezas que chegam como bombas atiradas a nós, algumas de forma brutal, como a responsabilidade que nos é imposta ao longo dos anos. Outras são tão suaves que se você não tiver beleza suficiente no olhar elas passam despercebidas, como uma flor que desabrocha suave, delicada, exala o seu perfume ao amanhecer e ao fim do dia murcha… Tão rápida a vida de flor.

A efemeridade vai muito além das flores e da poesia. É um paradoxo tão confuso que talvez apenas Deus entenda. Como tantos anos podem se passar tão rápido diante de nossos olhos? Tantos sonhos, tantos amores, tanta vontade refletidas em paredes e quadros e pinturas e músicas. Quando é que eu vou conseguir estar em plenitude dentro de mim mesmo? Como alguém que apenas durante alguns instantes aprecia uma boa música ou um bom filme. Quando você se dá conta, aquele tempo, aquela época, aqueles anos já se passaram… O perfume vai se desprendendo suavemente. Os sonhos vão ficando apenas na nossa memória, as saudades vão apertando o coração, apertando, apertando até não bater mais. É triste, não é? Mas existe beleza nisso. Viver é um lento desabrochar, mas quando a gente pensa que ainda estamos amanhecendo, já estamos murchando.

O perfume está no ar, murchar é inevitável. Apenas flores de plástico não morrem.

Pedro Araújo

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