Ela

Conheci-a num dia qualquer, numa tarde qualquer, num lugar qualquer. Apesar da minha boa memória não consegui guardar esses detalhes. Uma pena. Gostaria de saber como foi o primeiro olhar que trocamos, as primeiras palavras. Não lembro de nada disso. Mas lembro com clareza do dia em que o sorriso dela iluminou a minha face, e de como senti aquela luz adentrando o meu corpo, correndo pelas minhas veias, fazendo pulsar meu coração, causando um frio na barriga e arrepiando os pelos do meu corpo. Ela usava uma blusa preta e um short jeans, era tarde de sábado, fazia sol de verão. De todas as coisas eternas e infinitas que existem no mundo, como o universo e os números, aquele sorriso é a minha infinitude favorita. Guardarei-o para sempre em minhas lembranças. Não por querer, mas porque aquele sorriso se instalou em mim de forma tão completa que não conseguiria esquecê-lo mesmo que eu quisesse.
Ela tem o sorriso mais sincero e alegre que alguém poderia ter. Uma risada alta, repentina, que enche o ambiente inteiro de alegria e luz.
Ela tem um jeito de olhar que te pega e te aprisiona, que te reduz a uma criança que não sabe se expressar, um olhar tão penetrante que te faz sentir diante de uma multidão na hora de fazer um discurso, e você erra as palavras, e fica sem saber o que dizer diante daqueles olhos castanhos e grandes e abertos e brilhantes olhando na sua direção, como se houvesse um abismo do tamanho infinito do universo naquele lugar em que só existem você, ela e a única coisa que estabelece uma conexão nesse momento é o olhar.
Ela tem um cheiro bom, mais agradável que um jardim de flores numa manhã de primavera. Um cheiro que te faz apaixonar, que te traz sensações e lembranças boas, um cheiro que te faz querer se aconchegar no seu abraço e descansar. Um cheiro que desperta desejos e vontades, um cheiro que te faria flutuar se você fosse um desenho animado, um cheiro que te dá vontade de levar pra casa e guardar, só pra poder cheirar à noite ao travesseiro num quarto escuro antes de dormir.
Ela tem um jeito de menina, às vezes passional demais, às vezes frio demais, a maioria das pessoas não tem a capacidade ou a sensibilidade necessária para entender seu coração e sua alma, poucos conseguem entender a confusão que ela faz dentro da sua cabeça, numa lógica perfeita e num caos simultâneo, às vezes nem ela consegue se entender, mas isso só a deixa ainda mais bela, como se esse gota de imperfeição fosse a coisa que faltava para torná-la perfeita, pois uma perfeição plena seria monótona e sem emoção.
Ela tem a beleza de uma manhã de inverno ensolarada, de uma cachoeira despencando forte sobre uma pedra num rio de águas claras, ela tem a beleza de uma manhã quente de dezembro em frente ao mar, ela tem a beleza de uma flor rara que nasce onde não deveria nascer, mas que por teimosia decidiu nascer ali, por ser livre.
Ela tem o jeito certo de me fazer sorrir quando tudo parece estar desmoronando, ela entende o que eu não digo, ela me abraça sem que eu peça e me envolve numa ternura que é só sua, que é só nossa, ela me beija com vontade, com uma sinceridade e desejo tão intensos e ardentes que às vezes sinto, mesmo que me enganando, que nascemos para nos amar.
Ela tem o mundo inteiro dentro de si. Ela me tem nas mãos, mas deixa ir. Ela toca o infinito com seus dedos, como se estivesse acima das coisas do universo. Ela, desde sempre, e ainda que eu tente evitar, provavelmente para sempre, me tem por completo.

Pedro Araújo

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